8 de julho de 1943: um dia para não ser esquecido

No dia 8 de julho de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, 585 famílias japonesas foram obrigadas a se retirar da cidade de Santos, no litoral paulista. Cerca de 6.500 imigrantes foram expulsos de suas casas apenas com a roupa do corpo. Mais de 70 anos depois, a repórter do Nikkey Shimbun, Akiko Arima, ouviu personagens deste ‘passado obscuro’

Policiais armados deram a ordem de expulsão

Akira Miyagi

Em 8 de julho de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, 6.500 imigrantes japoneses que viviam na região litorânea de Santos, considerados cidadãos de um dos países do Eixo, receberam ordem da Polícia Política de São Paulo para deixarem da cidade em até 24 horas. Expulsos de suas casas com a roupa do corpo, não conseguiram se desfazer de terras e bens. Houve até pessoas que se separaram de suas famílias, pois elas se encontravam fora de casa nesse dia. A comunidade nipo-brasileira, durante mais de 70 anos após o fim da Segunda Guerra, nunca questionou oficialmente este caso e o enterrou como se fosse algo do passado. Mas o que realmente aconteceu? Com a colaboração da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, a repórter do Nikkey Shimbun, Akiko Arima, colheu depoimentos da época, entrevistando pessoas relacionadas ao evento.

“Para que o mesmo erro não se repita nunca mais”. Assim enfatizou Akira Miyagi, representante da Associação Okinawa Kenjin do Brasil e diretor do Centro de Pesquisas da Imigração Okinawana no Brasil, em missa memorial pelo caso da expulsão em Santos, realizada na Igreja São Gonçalo, no centro de São Paulo, em 14 de julho de 2019.

Mário Jun Okuhara
Mário Jun Okuhara

Este caso, enterrado sob um passado obscuro, veio à tona em agosto de 2016, durante uma visita do diretor Yoju Matsubayashi a antiga Escola Japonesa de Santos. Por coincidência, ele viu a “lista de japoneses residentes em Santos e para onde seriam enviados” em cima de uma mesa.

Nessa lista havia 585 nomes de famílias e cerca de 60% delas, ou seja, 375 famílias, eram imigrantes de Okinawa. Ciente desse fato, Miyagi e Mário Jun Okuhara, diretor do documentário sobre o conflito da Shindo Renmei, “Yami no Ichinichi – O crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”, começaram a pesquisar e investigar o fato. Assim como publicado na coluna Jukai do Nikkey Shimbun, de 17 de abril de 2013, esta questão devia ser tratada com mais importância.

Miyagi, baseando-se nesta lista, reuniu depoimentos da época nas edições 3 a 5 da revista Muribushi, editada pela mesma escola, e publicou. Okuhara, em dezembro de 2015, redigiu um pedido de retratação sem fins pecuniários à Comissão da Anistia do Ministério da Justiça. No ano anterior, o projeto recebeu apoio da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, que foi aprovado por unanimidade. Foi a primeira vez que uma entidade nikkei oficial decidiu apoiar este movimento.

A missa memorial na Igreja São Gonçalo foi realizada graças ao esforço de Okuhara. Além dele, estavam presentes Milton Sadao Uehara, presidente da Associação Okinawa Kenjin do Brasil; Akira Miyagi e Eiki Shimabukuro, ex-presidente da associação, que também fizeram suas preces.

Este caso ocorreu durante a ditadura Vargas, entre 1937 a 1945. Os japoneses foram reprimidos por serem cidadãos de um país inimigo e o caso do afundamento de navios mercantes por um submarino alemão no litoral de Santos serviu de gatilho para que os cidadãos do país do Eixo fossem vistos como ameaça à segurança nacional, sendo emitida a ordem de expulsão de Santos.

Nesse dia, sob a vigilância de policiais armados, as pessoas foram levadas para a Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, vestindo apenas a roupa do corpo e sem poder se comunicar com familiares. Na realidade, como foi essa situação?

“Naquele dia, dois brasileiros portando rifles vieram à minha casa para dar a ordem de expulsão”. Em 31 de maio deste ano, Miyagi e o presidente Uehara, com a cooperação de Shimabukuro, entrevistaram Roberto Masakatsu Sakuma (83 anos, nissei), na sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, que relatou com vivacidade a situação da época.

‘Roubaram tudo diante dos meus olhos’

Roberto Masakatsu Sakuma relata o caso na época
Roberto Masakatsu Sakuma relata o caso na
época

Roberto Masakatsu Sakuma (83 anos, nissei) nasceu em 1936, em Santos. Desde que se lembra, o governo brasileiro considerava o Japão como país inimigo. Na época da ordem de expulsão, ele tinha sete anos de idade e frequentava o primeiro ano escolar.

No dia do caso, a escola estava em férias de inverno, por isso ele estava em casa. Os pais tinham ido trabalhar. Na casa estavam apenas os quatro irmãos, de nove a dois anos. Nesse dia, policiais brasileiros armados foram até a casa deles.

Sakuma percebeu a movimentação e, por instinto, fechou todas as portas e se escondeu, para que ninguém os visse. Por causa disso, passaram despercebidos.

Depois disso, com o retorno dos pais, souberam da ordem de expulsão quando visitavam a casa do tio que morava perto. Quando perguntado sobre a reação dos pais na época, Sakuma baixou o olhar: “Meu pai estava preocupado com minha mãe. Ela estava grávida de nove meses”.

O pai, Suketoku, achou melhor que a esposa, dona Uto, ficasse na cidade por causa da gravidez. Ele foi até a delegacia e explicou a situação: “Deixe-a ficar até que o bebê nasça”. Mas a resposta que recebeu foi cruel: “Sua esposa nasceu no Brasil, ela pode ficar, mas você tem que sair. Ou vamos te prender”.

Ele não podia deixar a esposa sozinha, então engoliu a raiva e a frustração e voltou para casa, colocando em algumas malas tudo o que coubesse. Ele não tinha tempo para desanimar.

A propósito, os brasileiros que souberam dessa ordem de expulsão se aproveitaram da situação e entraram nas casas, roubando objetos com descaramento, na frente das famílias. Móveis, ferramentas, verduras… os bens que conquistaram com tanto esforço foram roubados diante de seus olhos. “A polícia não disse nada. Foi muito humilhante”.

Às 11 horas da noite, quando chegaram na estação de trem, já havia muitas pessoas. Embora alemães e italianos também estivessem lá, a maioria era de japoneses. Sakuma relembra: “Como havia policiais armados vigiando, as pessoas não se rebelaram contra a ordem. Foi tudo silencioso”. Sem saber para onde estavam sendo levados, o trem partiu rumo a São Paulo.

“Até então, nunca tinha passado por discriminação racial em Santos. Lembro que brincava bastante na praia. A vida em Santos era um paraíso”. Expulsos da cidade onde nasceu e foi criado, Sakuma e a família foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes, de onde se mudaram para o interior de São Paulo, em Marília.

Mas esse não foi o fim dos sofrimentos que a família Sakuma e os imigrantes japoneses passaram.

A discriminação no hospital com cidadãos de países inimigos

Yusei Higa
Yusei Higa

Quando a família Sakuma chegou a Marília, eles ficaram na Pensão Mori, administrada por japoneses. Assim que chegou, dona Uto sentiu as contrações do parto e deu à luz em segurança.

No segundo ano da nova vida, em 1945, dona Uto engravidou novamente e deu à luz quadrigêmeos. Mas como eram prematuros, precisavam de cuidados médicos no hospital.

Contudo, por serem bebês do país inimigo, mãe e filhos foram dispensados e dois deles morreram. Sakuma acredita que foi claramente um ato de discriminação contra os japoneses.

Além disso, um destino mais triste teve o tio de Sakuma. Expulso de Santos, ele se mudou para Marília também, mas pelo trauma da experiência, ele desenvolveu depressão.

“Meu tio já era uma pessoa calada, então ele não contou que estava doente. Depois de 4, 5 anos, ele faleceu. Meu primo, dois anos mais velho do que eu, começou a trabalhar no lugar do meu tio, depois de se formar na escola primária”.

Ele também ouviu casos de outras pessoas: “Não sei se foi por influência do caso de Santos ou porque os médicos viam os japoneses como inimigos, mas houve uma pessoa que ficou cega porque não recebeu tratamento médico adequado”. O grande caso de expulsão repentina ainda reverberava na vida dessas pessoas de várias formas, afetando-as continuamente.

“Eu sempre pensei nos acontecimentos daquele dia. Mas não queria falar sobre isso nem com a minha família”. O que rompeu o silêncio sobre essas memórias foi saber que a revista Muribushi estava reunindo depoimentos.

Ele revelou o que sente e sua preocupação: “Nunca divulgaram o caso em Santos. Mas sempre houve o questionamento do motivo para os japoneses terem recebido tal tratamento. Quero deixar este registro para que essa história de erro não se repita mais”.

“Não entendi absolutamente nada quando foi dada a ordem de expulsão em Santos. Não tivemos tempo para pensar”. Assim disse Yusei Higa (86 anos, nissei), após refletir sobre o que sentiu na época.

Nesse dia, ao retornar da escola, a mãe, dona Toshiko disse: “Precisamos sair daqui (de Santos) em até 24 horas”. Dona Toshiko soube da ordem de expulsão pelo tio, que recebeu a notificação.

Na época, Higa tinha 11 anos. Como frequentava a escola, ele disse: “Vou sair de Santos quando terminar escola”. Mas a mãe, nervosa, respondeu: “Precisamos sair agora mesmo”.

Japoneses são espiões, saiam daqui.

Yusei, ouvindo da mãe, dona Toshiko, sobre a ordem de expulsão, foi imediatamente para a escola e contou para o professor, que disse para ficar na casa dele, mas Yusei preferiu ficar com a família e se despediu.

Na época, seu pai, Yuki, tinha ido trabalhar na Argentina e estava desaparecido. Yusei morava com a mãe e cinco irmãos. Voltando para casa, a família foi para a casa do tio, que morava perto.

Durante o percurso até a casa do tio, parecia que nada havia mudado. Nessa época corria o boato de que o exército alemão atacaria, então a iluminação da cidade era apagada e tudo estava às escuras. Até as luzes dos trens foram apagadas. Buscando em sua memória, ele disse: “À noite, éramos proibidos de sair de casa. Não podíamos brincar fora e tinha medo”.

A discriminação era frequente. Japoneses não podiam conversar em grupos com mais de três pessoas e nem falar em japonês. Como havia militares por todos os lados, se fossem descobertos, eram detidos.

Quando Yusei falou em uchinaguchi (língua de Okinawa) no trem, a mãe chamou a atenção, dizendo para não falar.

Ainda, houve o afundamento de um navio de guerra americano próximo do litoral de Santos e suspeitaram dos japoneses. Brasileiros diziam para os japoneses saírem de Santos.

“Os japoneses eram odiados. Éramos tratados como pessoas inferiores, como quinta-colunas”. Ele se lembra dessa humilhação até hoje.

Chegaram na casa do tio ao anoitecer. Ele e a mãe foram até a cidade comprar roupas porque em São Paulo era frio. Trazendo alguns cobertores, terminaram os preparativos e foram até a estação.

A estação estava repleta de pessoas e cerca de 90% eram japoneses. Tinham muitos italianos e alemães também. Todos estavam agitados e confusos. Houve pessoas que se separaram da família e outras que berravam, procurando por parentes.

Passaram um dia inteiro no interior do trem. Não havia comida e estavam famintos. Quando finalmente chegaram à Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo, conseguiram comer uma fatia de pão duro com feijão.

Foi então que Yusei pensou na situação em que se encontrava. O que aconteceu? Por que fomos obrigados a sair de Santos? O que vai acontecer com nossa casa? Vendo as pessoas ao redor chorarem ou com expressões preocupadas, dúvidas afloravam em sua mente infantil.

“Aquele acontecimento ficou no passado e eu esqueci. Não contei para ninguém”. Mas, revivendo as memórias dessa forma, fica o sentimento do tratamento absurdo que recebeu.

“É errado ser discriminado. Mesmo que meus pais fossem japoneses, eu nasci aqui, sou brasileiro. Sou um cidadão deste país. Esse tipo de coisa não pode se repetir”.

Pessoas bem-sucedidas perderam tudo repentinamente

Ana Maria Higa
Ana Maria Higa

De repente, a família que tinha uma vida feliz e abastada perdeu tudo. A maioria das pessoas relacionadas ao caso da retirada forçada de Santos nunca contou sobre isso a alguém.

Talvez não contaram por causa do forte trauma. Tentaram até se esquecer disso.

“Mesmo sendo algo ruim, é preciso deixar registrado na História”. Assim disse Ana Maria Higa (71 anos, nissei), em 25 de maio de 2019, na sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil.

Ela não foi uma das pessoas envolvidas no caso. Mas ouviu o relato da mãe e da tia e lembra-se com clareza. Apenas por ser cidadão de um país inimigo, tiveram que vender todos os bens por valores irrisórios e sair da cidade em menos de 24 horas. Essa terrível experiência é traumatizante até mesmo para quem não esteve envolvido diretamente.

O avô de Ana Maria era um comerciante bem-sucedido em Santos. Quem dirigia o caminhão do avô era o pai de Ana Maria. Posteriormente, ele se casou com Tomi, que veio a ser a mãe de Ana Maria, e viviam felizes, sem grandes dificuldades.

Nesse dia, a tia, ainda estudante da escola primária, foi dispensada das aulas e soube da ordem de expulsão quando chegou em casa. Nesse momento, militares entraram de repente na casa e começaram a vasculhar tudo. A avó tremia de pavor.

Foi então que a avó se lembrou de algo. O avô de Ana Maria serviu como soldado na Manchúria e veio a trabalhar como bombeiro em Okinawa. O uniforme militar estava guardado na casa.

Se fosse encontrado, achariam que ele era um soldado japonês e a situação se agravaria. Rapidamente, a avó jogou o uniforme na fogueira, aproveitando que os militares vasculhavam outro lugar.

Além disso, pelo que a avó contou a Ana Maria, antes da ordem de expulsão, ele enterrou no jardim os documentos pessoais da época, embrulhado em jornal. Parece que a avó não sabia o motivo, mas Ana Maria supôs: “Provavelmente deve ser porque os imigrantes japoneses já eram vistos com hostilidade”.

Por outro lado, os pais de Ana Maria, que moravam em outra casa após se casarem, não conseguiram contato com os pais e seguiram para a estação conforme a ordem de expulsão. Nessa época, a mãe de Ana Maria, dona Tomi, estava grávida de 7 meses.

“Por coincidência, parece que encontraram um conhecido, Taro Miyagi, na estação”. O alívio por ter encontrado um rosto conhecido fez Tomi se aproximar de Miyagi em lágrimas.

Os dois acabaram conversando em japonês e um militar se aproximou. Ele perguntou o que estava acontecendo, porque estavam conversando. Miyagi respondeu rapidamente que ela era a filha dele e o militar respondeu que tudo bem, terminando sem conflitos.

Mas Tomi estava apreensiva com a possibilidade de abortar por causa da expulsão. O primeiro bebê foi natimorto. “Minha mãe escondeu-se embaixo de uma mesa na estação e tremia de medo, enquanto mais e mais pessoas avançavam”.

Posteriormente, os avós e os pais de Ana Maria foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes separadamente. Lá, as pessoas praticavam sumô e tocavam sanshin, consolando uns aos outros com entretenimento.

Apesar de ser uma família de comerciantes bem-sucedida, eles perderam todos os bens. Em São Paulo, as duas famílias tiveram que alugar um quarto e moravam com aperto. Ana Maria disse sobre a mãe e a avó: “Elas levavam uma vida feliz, mas perderam tudo e ficaram desesperadas”.

Anos depois, Ana Maria escreveu essa história e traduziu para o japonês, enviando para os parentes que moravam em Okinawa. Os parentes, que sofreram durante a guerra, choraram ao ler a história: “Acharam que a família levava uma vida feliz no Brasil e não imaginaram que havia acontecido isso”.

Silenciosamente, Ana Maria disse: “Entendo que isso aconteceu por causa da guerra. Mas aqueles que sofreram foram pessoas inocentes”. Ela reforçou: “Não importa qual fosse a situação, está errado discriminar. Devemos transmitir essa história para nossos descendentes, para que saibam disso”.

O silêncio de 74 anos após o caso.

Masao Toyama
Masao Toyama

A maioria das pessoas relacionadas ao caso de Santos que estão vivas eram crianças na época. Dentre os entrevistados, o único adulto é Masao Toyama (98 anos, de Tamagusukuson (atual Nanjo)), que reside em Santos.

Ainda cheio de energia, ele tem boa memória. Apesar de sua longa estadia no Brasil, ao falar deste caso, ele se torna reticente. Evitando o olhar com um jeito nervoso, ele diz em poucas palavras: “Nunca falei sobre isso”.

Toyama imigrou ao Brasil com dez anos e desembarcou no porto de Santos em 14 de janeiro de 1932. Como veio para o Brasil ainda pequeno e foi proibido falar japonês durante o período da guerra, ele conversa mais em português.

Ele tinha 22 anos na época do caso. Como toda a família trabalhava fora do estado de São Paulo, ele morava com o tio e ganhava a vida como mecânico em uma empresa de ônibus.

“Acho que estava com meu tio em casa quando uma pessoa que parecia policial veio e notificou a ordem de despejo. Não lembro muito bem”. Falou, como se abrisse uma caixa lacrada, buscando na memória de um passado distante e fechando os olhos às vezes.

Toyama estava desnorteado com a notificação. Ele recorda: “Não tivemos tempo de fazer as malas, saímos com a roupa do corpo. Fui sozinho para a estação”. Ele deixou os bens, dinheiro e tudo o que tinha na casa.

Quando chegou a estação, haviam muitos japoneses e militares. Como era proibido reunir-se com outros japoneses, não teve tempo de conversar. Ele recorda: “Em Marapé, um okinawano criava porcos, mas abandonou tudo e fugiu”.

O caso foi um grande trauma, mas ele já sofria discriminação no cotidiano. “Tentamos criar uma feira entre os japoneses, mas não nos foi permitido, então vendíamos na rua, embaixo de postes”.

Os brasileiros tiravam sarro, chamando-o de “Japão, Japão”. Além disso, também era chamado de “Quinta-coluna”. Na quarta reportagem, Yusei Higa disse que “quinta-coluna” queria dizer “espião”.

Masao Toyama, na época em que imigrou
Masao Toyama, na época em que imigrou

Não podiam ter rádio em casa, pois suspeitavam que espiões se comunicavam usando o aparelho. Para se manter discretos o máximo possível, envolviam a luz com latas vazias, para não deixar a luz ser vista do lado de fora.

Ele falou sobre essas memórias pela primeira vez durante a entrevista com Akira Miyagi para a revista Muribushi. Como foi um fato muito doloroso, ele havia bloqueado essas recordações. Enquanto intercalava com histórias da época em que vivia feliz, ele dizia que não queria falar sobre as dificuldades.

Em 1947, após a guerra, ele retornou para Santos e encontrou brasileiros morando no local onde ficava sua casa. Perdeu todos os bens. Ele também criava porcos, mas não encontrou nenhum. Ao olhar para a lua no céu noturno, lágrimas de decepção correram pelo rosto.

“Na Hospedaria dos Imigrantes, o chão estava repleto de japoneses dormindo. Foi uma época muito triste”. Assim murmurou, Toyama calou-se.

Relatar pelo bem do futuro deste país.

Luiz Kazuei Hashimoto
Luiz Kazuei Hashimoto

“Para transmitir esta história aos nossos descendentes, eu concordo com o pedido de retratação ao governo por este caso que nos causou sofrimento”. Assim respondeu Luiz Kazuei Hashimoto (89 anos, nissei) quando indagado sobre o pedido de retratação sem fins pecuniários ao governo brasileiro. Como alguém relacionado ao caso, foi uma declaração muito consciente da importância para ter coragem e falar, pelo bem do futuro deste país.

No caso de retirada forçada em Santos, ocorrido em 8 de julho de 1943, das 585 famílias japonesas, cerca de 60% delas, ou seja, 375 famílias eram de Okinawa. Com a colaboração da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, dos cinco entrevistados, quatro eram de Okinawa. Mas um deles, Luiz Kazuei Hashimoto, nasceu em Honshu, ilha principal do Japão.

Na época em que foi dada a ordem de expulsão, Hashimoto tinha 13 anos. Morava com os pais e oito irmãos. Por volta das 4 da tarde, quando a família estava em casa, foi dito que eles deveriam partir de trem às 6 horas da manhã seguinte. Todos entraram em pânico.

Apressados, eles encheram as malas apenas com roupas e fizeram os preparativos. A mãe, carregando a filha de dois anos, foi até a estação. Quando chegou por volta das 6 horas da manhã, havia muitos japoneses, alemães e italianos. No meio da confusão, não houve tempo para pensar em nada e foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

“Não lembro muito daquela época. Sei que meu pai ficou muito preocupado quando foi emitida a ordem de expulsão. Ele conversou com meu irmão mais velho, de 24 anos, mas não disse nada para mim, que era pequeno”.

Mudaram-se para Marília após passarem pela Hospedaria dos Imigrantes. Lá, a família tentou matriculá-lo na escola, mas disseram que não tinha o registro de nascimento, por isso ele não pôde frequentar a escola por três anos. “Pensando agora, acho que foi discriminação”, recorda Hashimoto. Na época ele tinha 13 anos, mas como não podia frequentar a escola, teve que trabalhar.

Em 1946, receberam a notícia de que poderiam voltar a Santos e, pelo bem da educação dos filhos, a mãe decidiu retornar à cidade. Mas não havia nem vestígios da casa que moravam na cidade. Ela ficou atônita.

“Não falei sobre isso com minha família. É algo que aconteceu há mais de 70 anos. Não tenho interesse agora em exigir desculpas oficiais”. Mas sua opinião mudou quando pensou nos descendentes.

“As pessoas que foram expulsas da cidade perderam a casa e todos os seus bens. Nossos descendentes não sabem sobre isso”. Reforçando a tragédia do caso, ele continuou: “Para transmitir essa história a eles, acho que faz sentido o movimento pelo pedido de retratação ao governo. Por isso, eu aceitei fazer esta entrevista”.

Citando como exemplo a Escola Japonesa de Santos, que foi posta sob controle do governo brasileiro durante um longo período, ele disse, em tom forte: “A devolução da escola em 2018 também começou a partir deste tipo de movimento. Depois disso, houveram várias negociações com o governo. É o mesmo com o caso da expulsão”.

FONTE : JORNAL NIPPAK (VIA N.S.)

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