Cozinha solidária: chefs aproveitam estrutura para doar marmitas

“Eu nunca tinha comido shimeji antes, aqui é comida de elite, comida boa demais”, contou Leandro Pessoa Santos, morador de rua, de 47 anos, na fila para pegar a “quentinha” do restaurante Mocotó. Localizado na Vila Medeiros, na zona norte de São Paulo, o restaurante de comida sertaneja, do chef Rodrigo Oliveira, passou a distribuir refeições gratuitas aos “vizinhos da quebrada” em situação de vulnerabilidade, na tentativa de amenizar os efeitos sociais e econômicos da pandemia de covid-19. A iniciativa teve início em 20 de março, mesmo dia em que o chef fechou os salões de suas casas para atender apenas pelo delivery.

Todos os dias, a partir das 10h da manhã, funcionários do restaurante, com luvas e máscara de proteção, distribuem as fichas que dão direito à marmita de arroz, feijão e uma proteína – a fila para garantir o almoço começa bem antes, por volta das 7h. Das 11h ao meio dia, a equipe do restaurante faz a distribuição de 200 quentinhas. “É um carinho, um afago para pessoas que, muitas vezes, não têm nada”, afirma Ricardo Lima, gerente administrativo do Mocotó. 

Batizado de Quebrada Alimentada, o projeto conta com doações de pessoas físicas e jurídicas, de diversos setores, e tem até uma “vaquinha” online (vaka.me/963053) – que já arrecadou R$ 29.403. O montante é 100% destinado à compra de ingredientes, enquanto o Mocotó arca com os custos da produção. A ideia é que a distribuição de marmitas prossiga mesmo com o fim da crise, enquanto forem feitas doações.

Entre os restaurantes que aderiram à causa e efetuaram doações estão o italiano Fasano e o Arturito, de Paola Carosella – a chef arrecadou 3.600 bandejas de cogumelos (eis os shimejis!) com a Associação Brasileira de Produtores de Cogumelos e as repassou ao Mocotó.

Cozinha de Combate

Arroz com cúrcuma, saladinha de orgânicos (da Fazenda Santa Adelaide), frango ao curry, muitos e muitos vegetais. As receitas que compõem as marmitas da chef Izadora Ribeiro, do Isla Café, distribuídas desde terça-feira (31) a comunidades carentes, levam o mesmo tempero – e carinho – dos pratos do cardápio do restaurante de Pinheiros.

A casa suspendeu as atividades antes mesmo do decreto imposto pelo governo. De portas fechadas, Izadora, ao lado do sócio, Marcus Ozzi, aproveitou o tempo “de sobra”, a cozinha vaga do restaurante e os funcionários querendo trabalhar para criar a Cozinha de Combate.

Com doações feitas por meio do site de financiamento coletivo Abacashi – cada marmita custa R$ 20, valor mínimo para doação, podendo chegar a R$ 600 –, o projeto produz 150 marmitas por dia. Elas são distribuídas entre a Associação de Mulheres de Paraisópolis, responsável pela alimentação de mais de 5 mil famílias na comunidade, e pessoas em situação de rua atendidas pelo Padre Júlio Lancelotti e pelo Frei Diogo na região central.

O projeto também contempla a sobrevivência do restaurante. O valor arrecadado arca com a compra de insumos e também com a folha de pagamento dos funcionários, sem lucros.

Izadora não dispensou nenhum funcionário e, com o projeto, acredita que vai conseguir se manter assim até o fim da crise. “É uma situação de ganha-ganha, ajudamos quem mais precisa e também ficamos em pé, ajudando nossos colaboradores, assim como nossos fornecedores, que também sofrem neste momento”.

Desde quando foi lançado, na última terça-feira (24), o projeto já arrecadou quase R$ 30 mil, um pouco menos da metade do valor necessário para produzir 3 mil marmitas no mês. A quentinha servida na sexta tinha carne de panela bem temperadinha, arroz de cúrcuma, feijão, farofa com bacon e banana, salada de tomate e cebola roxa e escarola.

Também para entregadores

No Aizomê, boa parte da refeição que até antes da quarentena era destinada aos funcionários do restaurante – atualmente, apenas 12 (dos 75) seguem no batente – é, agora, distribuída à população carente do entorno. E também aos motoboys, que seguem expostos, muitas vezes em situação de subemprego.

A chef Telma Shiraishi, do Aizomê: comida também é doada a entregadores

© Felipe Rau/Estadão A chef Telma Shiraishi, do Aizomê: comida também é doada a entregadores

“O que cozinhamos para a equipe é o que vai nas marmitas: arroz, feijão, uma proteína, salada, farofa ou legumes. Às vezes tem macarronada”, conta a chef Telma Shiraishi. Para fazer as quentinhas, além de aproveitar os insumos que sobraram com o fechamento repentino do restaurante, Telma banca ela própria a compra de ingredientes.

Já para Paulo Sousa, do restaurante Nou, a ação social não é fruto da crise. Ele já distribuía sanduíches aos domingos para moradores da cracolândia, mas, em razão das medidas de isolamento, foi aconselhado a parar com as entregas na região. Desde então, com a ajuda da equipe do restaurante, ele prepara as marmitas – com receitas do próprio Nou, como estrogonofe e milanesas – que entrega, uma vez por semana, em um abrigo e no Centro de Saúde de Pinheiros, para os colaboradores do posto. “Eles estão colocando a vida em risco. É um gesto de agradecimento”, conta Sousa.

AJUDE A AJUDAR

#DistanciaAproxima

A cachaça Arbórea, com o Instituto Coruputuba, criou um fundo para amparar trabalhadores do setor afetados com a paralisação dos restaurantes. Por meio de financiamento coletivo, converte doações em cestas básicas, produtos de higiene e medicamentos.

Doações no 474

Até amanhã (7), entre 11h/22h, a Taberna 474 (R. Maria Carolina, 474) arrecada alimentos em prol das ONGs Capão Cidadão e Pró Saber. Clientes que doarem quatro quilos de alimentos não perecíveis (exceto açúcar, sal e farinha) terão 30% de desconto no delivery até o fim da quarentena.

Novos Sonhos no centro

Gabriel Prieto, do Holy Burger, por meio da ONG Novos Sonhos, distribui marmitas, sabonetes e álcool em gel para moradores de rua. Por meio do Instituto Ybi, chefs como Janaina e Jefferson Rueda, Danielle Dahoui, Renato Deveras também contribuem.

FONTE : MSN BRASIL (VIA ESTADÃO)

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