Japão tenta alavancar sistemas de pagamento por celular com código QR

Quando a temporada de beisebol começou no Japão em abril, os torcedores do time Tohoku Rakuten Golden Eagles enfrentaram uma inconveniência que nunca haviam visto antes: as barracas de comida e bebida não aceitavam dinheiro.

A proprietária da equipe, a empresa de comércio eletrônico Rakuten, estava tentando promover seu sistema de pagamento móvel com código QR. Mas a jogada de marketing rapidamente se revelou muito mais do que isso.

Em abril e maio, as vendas de alimentos, bebidas e mercadorias no estádio Eagles, na cidade de Sendai (Miyagi), saltaram 20% em relação ao mesmo bimestre de 2018, em parte porque tirar dinheiro da equação mudou os hábitos de consumo.

“Consideramos que é uma história de sucesso”, disse Hayato Morofushi, gerente de marketing dos pagamentos móveis da Rakuten. “O uso de códigos QR para pagamentos acaba de começar no Japão, por isso não esperamos que todos entrem na onda. À medida que obtemos mais histórias de sucesso, isso irá conquistar mais pessoas.”

Especialistas dizem que quando as filas se movem mais rápido, mais pessoas participam. Os clientes não veem dinheiro em caixa e concentram-se na satisfação de uma compra, por isso gastam mais.

Essa psicologia pode ser crucial para a economia do Japão, bloqueada por décadas em uma mentalidade deflacionária, em que os consumidores atrasam os gastos na esperança de preços estáveis ​​ou mais baixos.

O Banco do Japão gastou mais de US$ 3 trilhões desde 2013 em títulos e outros ativos para atingir uma taxa de inflação de 2%, sem sucesso.
Um aumento previsto no imposto sobre consumo de 8% para 10% em outubro poderia prejudicar os gastos.

Consciente desse risco, o governo está apostando alto nos pagamentos móveis, um setor que está apenas se consolidando no Japão.
Assim que o aumento de imposto entrar em vigor, o governo oferecerá pontos que poderão ser trocados por descontos futuros para os compradores que usarem códigos QR e outros pagamentos sem dinheiro durante nove meses.

O projeto tem um orçamento de seis meses de 280 bilhões de ienes (US$ 2,6 bilhões), que será reavaliado no novo ano fiscal.
“Se mudarmos a forma como pagamos, podemos mudar a sociedade como um todo”, disse Masamichi Ito, diretor do escritório de promoção “cahsless” do Ministério da Economia japonês, criado em outubro com o objetivo de dobrar as transações sem dinheiro para 120 trilhões de ienes até 2025.

O dinheiro liquida 80% das transações do Japão, com o restante sendo compartilhado entre cartões de crédito, cartões móveis e cartões pré-pagos. Essa é a maior taxa de utilização de dinheiro no mundo desenvolvido depois da Alemanha.

Baixas taxas de criminalidade – os japoneses sentem-se confortáveis ​​carregando grandes quantidades de dinheiro – e uma população envelhecida é vista como os principais obstáculos para uma adoção mais profunda.

Na Índia e na China, dois dos gastadores mais vorazes do mundo, os pagamentos móveis representam 30 a 35% das transações, de acordo com a Statista.
Em média, os pagamentos sem dinheiro aumentam as vendas por cliente em 1,6%, segundo o Nomura Research Institute (NRI). O consumo interno no Japão cresceu em média 0,5% ao ano desde 2013.

O governo diz que o uso de celulares para pagamentos poderia aliviar outras grandes dores de cabeça econômicas, como a escassez de mão de obra e a queda da lucratividade dos bancos, simplesmente por ser mais eficiente.

Os caixas gastam, em média, mais de duas horas por dia gerenciando dinheiro, enquanto os bancos japoneses gastam cerca de 1 trilhão de ienes por ano em sua rede de caixas eletrônicos e movimentando dinheiro, diz a NRI.
COMPRADORES CHINESES

Os gastos com turismo, especialmente da China, têm sido um dos poucos pontos econômicos do Japão, e turistas chineses usam o sistema de pagamento móvel AliPay, administrado pelo Ant Financial Services Group, em mais de 300 mil estabelecimentos japoneses.

Alguns balcões duty-free em grandes lojas de departamento depositam reembolsos de impostos diretamente em contas AliPay. O aplicativo usa anúncios direcionados para ajudar os usuários a encontrar o que desejam comprar e recomenda produtos relacionados nas proximidades. Quando os usuários retornam à China, eles recebem uma recomendação para comprar produtos japoneses semelhantes online.

A empresa de pagamento móvel sul-coreana Kakao Pay quer entrar no Japão, apostando na iniciativa de Tóquio de deixar de usar papel, disse Ryu Young-joon, executivo-chefe da Kakao Pay, em entrevista à Reuters em maio.

“Quando vou ao Japão, eles não aceitam cartões de crédito em muitas lojas”, disse Ryu. “Então, pensei que, se eu pudesse usar o Kakao Pay no Japão, seria bom.”
PayPay, um sistema de código QR japonês lançado em outubro, é compatível com o AliPay, o que pode suavizar o caminho para a adoção local.
Satoshi Komiya, 39 anos, que administra um restaurante de curry em Tóquio, adotou o PayPay três meses atrás – assinando um acordo que garantia não haver cobrança de honorários por três anos – e desde então, disse ter notado um aumento “leve” nas vendas.
“Até agora, tudo bem”, disse Komiya.
RELUTÂNCIA

Mas outros provedores de pagamento japoneses, incluindo a Origami, o Line Pay e o site de leilões Mercari, normalmente cobram taxas de cerca de 3%.

Como os varejistas menores no Japão têm uma margem média de lucro de cerca de 2%, essas taxas são um grande obstáculo para a adoção, disse Yuki Fukumoto, pesquisador do NLI Research Institute.

O Japão também tem uma rede de máquinas de venda onipresente e distribuidores de bilhetes de refeição que dependem de dinheiro e não podem ser substituídos ou atualizados durante a noite.

“As pessoas dizem que os compradores gastam mais quando usam códigos QR, mas acho que isso não acontecerá na minha loja”, disse Tomoko Yokoyama, 50 anos, que administra uma loja de tênis em Tóquio.

“Eu tenho que pagar taxas em cada compra, por isso é o mesmo que vender mercadorias com desconto”, acrescentou. “Isso seria um desastre.”

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